25/05/2020

Hipertensão Arterial - Precisamos Conhecer

Este texto foi concedido pelo Hospital Socor, parceiro da Premium Saúde em Minas Gerais. O Hospital Socor participa do Programa de Qualificação da Rede Credenciada.

Muitas vezes, um acontecimento inusitado nos leva a pensar sobre assuntos que, normalmente, não damos a devida atenção. Em tempos de corona vírus, ficamos (e estamos) embasbacados diante de um enigma. Como pode um mísero vírus, saído sei lá de onde (e como), pode impactar a vida do mundo inteiro? Fomos capturados num verdadeiro redemoinho que assombra a terra: ricos e pobres compartilham o mesmo temor. Não sabemos direito como entramos, nem quando vamos de fato sair disso. Mas o certo é que com o vírus ou sem ele, precisamos nos cuidar.

As doenças cardiovasculares, entre as quais se destaca a “pressão alta” (hipertensão arterial), continuam sendo a principal causa de morte no mundo inteiro, há anos e anos. E, normalmente, não nos preocupamos com essas doenças. Diagnosticamos pouco e tratamos mal.

Então, “aproveitado um tempo de pandemia” vamos conversar sobre a hipertensão e o que é preciso saber, para não nos deixarmos levar por “achismos”.

A sabedoria popular diz que nós só tomamos atitudes quanto à nossa saúde, quando entendemos os riscos aos quais estamos expostos.


A Hipertensão Arterial, ou simplesmente “pressão alta” é uma entidade clinica muito frequente em todo o mundo e aumenta em frequência, à medida que ficamos mais velhos.

Assim, até os 30 anos de idade, menos de 10% da população humana tem “pressão alta”. Daí pra frente, esse percentual vai aumentando, sendo que após os 60-70 anos de idade, mais da metade da população humana pode ter hipertensão. Aqui no Brasil, como no resto do mundo, em média, cerca de 35-40% da população adulta tem hipertensão.

E o que é muito importante: a imensa maioria da população adulta, de novo não apenas no Brasil, mas igualmente em todo o mundo, morre de infarto ou acidente vascular cerebral e mais da metade destes indivíduos tem a hipertensão (não reconhecida ou não tratada) como a causa que está por trás dessas complicações.

E aí, obviamente, fazemo-nos algumas perguntas: vamos enumerar algumas delas.

1- Se a hipertensão é tão frequente e tanta gente pode sofrer dela, o que eu devo fazer para me proteger, ou porque eu devo me preocupar com ela?

2- É sempre uma condição grave ? Tem cura? O que causa faz a pressão subir ?

3- O que uma pessoa hipertensa sente e quais sintomas ou sinais eu devo ficar atento para não correr riscos?

4- E afinal, o que é mesmo a Hipertensão Arterial, ou mais popularmente, o que é “pressão alta” ?

5- Devemos sempre nos tratar? Quais os cuidados e quais remédios dispomos ?

6- A hipertensão é uma condição que eu posso prevenir? Ou seja, existem fatores que podem desencadear ou piorar a pressão alta?

Vamos então tecer algumas considerações sobre a hipertensão, de tal forma, que ao final da exposição, possamos ter uma visão clara e realista desse problema tão prevalente e que pode estar envolvido com complicações sérias.

De maneira bem simples, podemos dizer que a “pressão alta” existe quando os vasos sanguíneos, que conduzem o sangue que circula pelo corpo, sofrem uma pressão mais forte para fazer o sangue circular. Essa pressão alta nos vasos acaba, de alguma forma, sobrecarregando uma série de órgãos como o coração, os rins e o cérebro.

A pressão arterial é medida através de aparelhos (chamados esfigmomanômetros) e expressa em milímetros de mercúrio (mm Hg). Tem-se, por este método, a determinação de uma pressão máxima e uma pressão mínima. É importante saber que os níveis de pressão, assim aferidos, são diferentes e os valores de normalidade são diferentes para pessoas jovens ou idosas.

Não existe um “valor mágico” para a pressão normal, mas todas as diretrizes nacionais e internacionais consideram que uma pressão arterial ótima seria igual ou menor que 120 por 80 mm Hg. A partir de 130/80 a pressão é considerada alta. Mas o médico é que decidirá com o paciente, a partir de que valor da pressão alta, será necessário iniciar com um remédio. Hoje, todo mundo pode ter um aparelho de medir a pressão em casa. Isto pode ajudar, sim. Mas, com frequência, observamos que as pessoas passam a ficar preocupadas com “o número da pressão arterial” e se esquecem que uma série de fatores podem fazer esses valores variarem muito.

Durante algum tempo (e esse tempo é variável, dependendo de cada pessoa) os órgãos conseguem se adaptar e se proteger de lesões impostas pela pressão alta, mas chega num ponto em que eles mostram sinais de que “não estão dando conta”, e aí surgem os sintomas, que vão variar dependendo daquele órgão que é mais acometido. Só para exemplificar: o coração de um indivíduo hipertenso, com o passar do tempo vai se hipertrofiando (vai aumentando o próprio músculo do coração), para “aguentar” o trabalho maior que tem que fazer para “empurrar o sangue para dentro de vasos sanguíneos que estão mais duros”.

Só que com o tempo, esse mecanismo se esgota e o coração vai ficando fraco. E o que é pior, a pressão alta dentro dos vasos torna-os propensos ao acúmulo de gordura nas suas paredes e isto pode determinar o seu entupimento, tendo como consequência um infarto no coração, um derrame no cérebro, a amputação de uma perna, a perda da função dos rins e a necessidade de entrar em diálise (um processo em que uma máquina filtra o sangue, já que os rins pararam de funcionar).

Assim, o paciente pode ter sintomas ligados ao coração (cansaço, dor no peito, palpitação), ao cérebro (dor de cabeça, derrame), aos rins (diminuição da urina e eventualmente falência da função de eliminar a urina), à visão (alterações na retina), etc.

Como já dissemos, em todo o mundo, as doenças cardiocirculatórias, representadas principalmente pelo infarto e acidente vascular cerebral (AVC) são as maiores causas de óbito e incapacidade na população adulta. Essas duas condições, sozinhas, matam muito mais que o câncer e os acidentes de todos os tipos. Mas para conforto nosso, é importante saber que se a hipertensão é controlada, podemos sim, diminuir a ocorrência do infarto ou do AVC.

Dá pra perceber que, então, estamos diante de um sério problema: mais da metade dos pacientes que tem infarto ou AVC são hipertensos, mas a grande maioria não trata a hipertensão, e às vezes, nem sabe que são hipertensos e e essas complicações, infelizmente, podem ser a primeira manifestação da “pressão alta”.

Há muitos anos a comunidade científica  e médica vem se preocupando com a hipertensão. Isto porque, em todo o mundo, a imensa maioria das pessoas que tem hipertensão não tem sintomas ligados à doença. Ou seja, na maioria dos casos, ficamos sabendo  que somos hipertensos porque, lá um belo dia, por uma série de circunstâncias, vamos  a um serviço de saúde e “descobrimos que estamos com a pressão alta”.

A imensa maioria dos hipertensos não sente nada, mesmo com a pressão já bem alta e é por isso que, notadamente após os trinta anos de idade, deveríamos checar os nossos níveis de pressão. Se temos na família, parentes de primeiro grau com história de hipertensão ou com relato de infarto ou AVC em pessoas mais jovens (menos de 60 anos de idade, em média), aí então, é que deveríamos fazer prevenção e procurar um serviço de saúde. Então, existem sim, certos fatores como hereditariedade, envelhecimento, raça (os indivíduos da raça negra tem mais hipertensão que os brancos), que são fatores relacionados ao aparecimento da pressão alta e que, é óbvio, são “fatores não modificáveis”.

Outro fato que é importante saber é que a maioria dos sintomas que o indivíduo sente, não são devidos à pressão alta, mas muitas vezes, já são o resultado do comprometimento dos órgãos que sofrem com a pressão alta. Vale ressaltar que os sintomas podem, por outro lado, se deverem a outras condições clínicas que coexistem num mesmo indivíduo. Por exemplo, dores de cabeça, hemorragia nasal, cansaço, podem ter outras explicações que não a pressão alta. O médico é que saberá identificar se os sintomas tem ou não relação com a pressão alta. Certas condições como pressão alta, excesso de peso, diabetes, cigarro, falta de atividade física, costumam andar juntas numa mesma pessoa.

E a partir do momento em que recebemos o diagnóstico de hipertensão devemos nos conscientizar que o tratamento sempre deve começar por abandonar certos hábitos que são nocivos à saúde, em geral, e para a hipertensão em particular. Precisamos lutar contra o excesso de peso, precisamos nos exercitar regularmente, não devemos fumar, devemos ter todo o cuidado com a ingestão de alimentos cujo teor de sal seja elevado, devemos evitar o consumo exagerado de bebidas alcóolicas. O estresse emocional ("stress”), representado pelo excesso de trabalho, angústia, preocupações, ansiedade de uma maneira geral, podem ser responsáveis pela elevação da pressão arterial.

Em verdade, a experiência acumulada mostra que, muitas vezes, apenas pelo controle desses fatores a pressão já normaliza, como também sabemos, que não adianta tomar remédios que abaixam a pressão, se não fazemos o nosso “dever de casa”, cuidando da nossa saúde. Nos últimos anos temos vivido uma epidemia de obesidade (no Brasil mais de 40% da população está acima do pesos ideal) e, certamente, o excesso de peso é um dos maiores fatores responsáveis pelo aumento expressivo do número de hipertensos.

Um fato reconfortante é que, já há muitos anos, temos todo um arsenal, bastante variado de medicamentos, que permitem o controle de praticamente todos os hipertensos.

O médico tem o hábito de dizer que não existe hipertensão sem controle, mas sim pacientes que não seguem as orientações.

Todo esquema de tratamento envolve o que chamamos de abordagem não farmacológica (controle daqueles hábitos ou condições que favorecem o aparecimento e agravamento da hipertensão), seguido pelo tratamento com remédios. Assim, se o indivíduo que é obeso perde peso, aquele que fuma para de fumar, aquele que faz opção por uma dieta balanceada, rica em frutas verduras e legumes e abandona a dieta rica em gordura, carboidratos (massas), somente essas mudanças de hábito podem normalizar a pressão ou facilitar em muito a ação dos remédios usados para o controle da pressão alta.

Hoje, não apenas temos medicamentos eficazes e bem tolerados, como muitos deles já estão disponíveis, gratuitamente, no serviço público.

Existe muita desinformação, muitos mitos e “medos”, que são veiculados por pessoas leigas, a respeito da hipertensão e do seu tratamento. Com frequência, o paciente mal orientado, fica preocupado com a possível ocorrência de efeitos indesejáveis (ou efeitos colaterais) dos medicamentos, ao invés de pensar no benefício do tratamento. Outro fato, que é também fruto da desinformação, é aquele em que o paciente interrompe a medicação sob o argumento de que “não sente mais nada” ou que essa medicação está lhe trazendo efeitos “que ele não tolera”. O paciente deve procurar o serviço médico para ser adequadamente orientado. Realmente alguns pacientes podem ter efeitos desagradáveis com os remédios, mas a sua suspensão só pode ser feita sob orientação profissional. A suspensão abrupta de um determinado remédio pode expor o paciente a sérias complicações decorrente do descontrole da pressão.

A lição importante é que a imensa maioria dos hipertensos pode ter a sua pressão controlada com nenhum ou poucos efeitos colaterais, e o que é fundamental, estará se protegendo de complicações que podem levar a sérias limitações e à morte.

Uma outra lição é seguir a recomendação da equipe de saúde (não apenas o médico) quanto à mudança do estilo de vida, quanto à observância do uso regular da medicação, quanto à necessidade de reavaliações periódicas, independente de sintomas.

Geralmente o indivíduo, uma vez rotulado como hipertenso, deverá manter o controle médico e tomará remédio pelo resto da vida. Mas existem algumas situações (não muito frequentes) em que identificamos os fatores responsáveis pela pressão alta e uma vez controlados esses fatores, a medicação pode ser suspensa.

Temos de reconhecer que o serviço de saúde no Brasil, infelizmente, tem sérias limitações. Mas, cada um deve cuidar de sí, procurando a assistência que ele dispõe e contribuindo de maneira decisiva para um bom resultado. Afinal, não é o médico que trata o paciente, mas o paciente que se trata, sob a supervisão da equipe de saúde.

Paciente e equipe de saúde devem trabalhar juntos. O beneficiário individual é o paciente, mas não nos esqueçamos que cada paciente doente, ainda mais quando sobrevém as complicações, constituem uma sobrecarga para a família e para a sociedade como um todo.

Enfim, hipertensão arterial pode não ter cura, mas tem controle. E o controle adequado é a única arma para evitar as complicações.

Dr. Epotamenides M. Good God - Coordenador Médico da Cardiologia